• Guilherme Gontijo

Interpretações abertas, incertezas e diegese em RPGs



A palavra da moda na cena de RPGs indies/OSR é

Diegético, adj. Aquilo que está dentro de uma narrativa, interno a ela.

Conquanto a palavra tenha aparecido no nosso meio em grande parte por conta do novo movimento FKR, tenho visto sua aplicação principalmente no que diz respeito a relação tríplice personagem-mecânica-narrativa. Um lugar que ainda não vi ninguém propor é na relação jogador-narrativa.


⚔️ O que muda quando o mestre assume que o jogador não é seu personagem?


Eu tenho pensado nisso em grande parte porque estou conhecendo o trabalho de Gene Wolfe por agora. Wolfe foi um autor que desafiou os limites entre os gêneros da ficção científica, prosa e fantasia. Ele era um engenheiro por formação e ele partia de um pressuposto que vi pouquíssimos autores terem a coragem e a habilidade para fazer:


⚔️ "O leitor não está inserido na ficção, mas o personagem sim."


Isso significa que nem tudo o que seus protagonistas nos dizem é confiável, porque eles próprios podem estar equivocados. Diferente de nós, leitores, os personagens não estão vendo o contexto de cima. Eles estão presos pelos limites diegéticos dos seus próprios universos fictícios. Para complicar um pouco mais, os protagonistas de Wolfe não conhecem o leitor. Se eles estão narrando os fatos de suas vidas, eles o estão fazendo para outrem que não nós. Se eles confiam nos destinatários de suas cartas abertas, ainda teremos que descobrir. Eles podem estar mentindo, afinal.


Na prática isso pode significar Wolfe nos dando uma informação no último parágrafo do livro e isso mudando a nossa percepção sobre diversos pontos passados durante a leitura. Suas histórias são uma espécie de puzzle que ficam melhores cada vez que você as relê pelo simples fato de que dessa vez você tem informações no início da história que não tinha da última vez que leu. Se você procurar pelo reddit há uma legião de fãs discutindo significados ocultos e conexões subliminares em suas histórias. Neil Gaiman é um dos grandes fãs de Gene Wolfe e ele costuma dizer uma frase que resume bem a coisa toda: "Personagens não confiáveis, autor confiável". Gene Wolfe não mentirá para você, mas ele não tem controle sobre o que seus personagens farão tendo em vista o meio em que estão inseridos.


⚔️E se jogadores e mestres de RPG fizessem isso?


Certamente geraria algumas sessões de jogo com elementos um pouco diferentes do que estamos acostumados. Pensando em diretrizes de jogos narrativamente complexos como esses montei uma lista de perguntas que o mestre deve se fazer antes da sessão começar.


1. Quem está dentro da narrativa e quem está fora?

2. Para quem a história está sendo contada?

3. O que os jogadores ainda não sabem que seus personagens já sabem?

4. Qual a relação entre quem está dentro com quem está fora da narrativa?

5. Quem está narrando a história para quem está ouvindo ela?


Essas cinco perguntas são ponta-pés iniciais para começarmos a pensar aventuras altamente re-jogáveis, com interpretações relativamente abertas, que apesar de enigmáticas a primeira vista, dão aos jogadores todas as ferramentas para que eles naveguem pela sua semiótica. Isso faria nossos módulos de RPG não apenas mais elegantes, mas também imperecíveis.


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Guilherme Gontijo é designer mineiro, pai do Caio e marido da Estela. Ele gosta de tomar café no fim de tarde e de fantasia não medieval.

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