• Guilherme Gontijo

Lições que aprendi com meu primeiro financiamento coletivo


Em 2020 eu lancei meu primeiro livro de RPG, Into the Bronze. Ele é um sistema minimalista seguindo os passos da velha escola e baseado no sistema pai de Chris McDowall, Into the Odd. Durante a campanha de financiamento coletivo eu implementei várias ideias. Algumas deram bem certo e outras me deram uma certa dor de cabeça. Esse artigo é para você que um dia pensa em lançar seu próprio livro no modelo de financiamento coletivo. Ele é dividido pelas lições que considero que aprendi e você tem total liberdade para pular alguma que não considere crucial para sua própria caminhada.


Marketing orgânico


O livro foi financiado em duas das quatro semanas que estabeleci como limite da campanha. Eu não spammei nenhum grupo de facebook e nenhum grupo de whatsapp com propagandas. A pergunta que você deve estar se fazendo é: então como que deu certo?!

Grande parte do sucesso da campanha, ao meu ver, é resultado de um bom e presente relacionamento na comunidade de RPGs independentes. Evitando polêmicas ao máximo, ignorando os trolls da comunidade e fomentando um espírito criativo nos pequenos agentes.


Nos grupos de Facebook eu...

Forneci imagens de domínio público, fiz um panfleto grátis sobre fazer panfletos de RPG, ajudei criadores quando tinham dúvidas a respeito de design gráfico, comentei e elogiei trabalhos de outros criadores e alimentei um blog sobre design de RPG por um ano.


No Reddit eu...

Comentei em tópicos do subreddit da OSR, onde estava presente meu público alvo. Além disso fui postando prévias das páginas diagramadas conforme ia as fazendo para que as pessoas pudessem ver que um trabalho estava em andamento. Sempre evitei o formato de Spam e sempre tentei fazer com que os posts fossem o mais pessoais o possível. Eu queria que as pessoas vissem que havia um ser humano por trás daquele jogo, e não uma empresa.


No Instagram eu...

Praticamente não postei nada. O instagram é um pouco cruel com o principal valor do RPG: relacionamentos. Aquela é uma rede social mais focada em um escapismo visual e isso não me interessava. O pouco que postei foi nos stories e ainda assim tive um engajamento baixo.


No Whatsapp eu...

Entrei no grupo de apoiadores de Financiamentos coletivos. Divulguei um mínimo para não encher o saco de ninguém e fui solícito e amigável com todos que tinham dúvidas ou demonstravam interesse no jogo.


Pondo a mão no fogo


Eu devo confessar que tinha vários receios a respeito do formato de financiamento coletivo para RPGs. Qualquer pessoa que esteja no meio já deve ter ouvido histórias escabrosas de atrasos nas entregas, falta de transparência ou mesmo sumiço de autores com o precioso dinheiro dos apoiadores.


Pensando nisso eu decidi que faria uma campanha com diretrizes próprias. Uma campanha que eu confiaria como apoiador. Isso, você deve imaginar, teve um custo alto para mim.


O carro na frente dos bois

O jogo estava pronto antes da campanha começar. Isso mesmo. Escrito, diagramado e com o arquivo pronto pra gráfica, só esperando o dinheiro cair. Prometi a todos os apoiadores que eles receberiam o pdf do livro em até 48h após o fim da campanha. Isso significa que o investimento em design gráfico foi feito como uma aposta. Eu acreditei que a campanha seria bem sucedida. Se ela falhasse, meu plano era colocar o jogo no Dungeonist como impressão sob demanda e ir recuperando o dinheiro investido aos poucos.


Pagamento ao autor: R$1000

Pagamento ao designer gráfico: R$2000


Eu mesmo fui o autor e o designer

Isso significa que se a campanha desse errado, eu e minha esposa (que estava grávida na época) teríamos grandes problemas para pagar nossas contas básicas naquele mês, já que o trabalho me tomou o mês todo, não dando tempo restante para que eu trabalhasse em outros projetos. Foi um risco que eu assumi e graças ao bom Deus deu certo. Ao mesmo tempo que o risco de dar errado era alto, se desse certo os ganhos seriam bons para nossa família.


Fastplay diagramado e bonito

Outro investimento foi liberar o Fastplay de graça. Um documento com um resumo das regras e alguns personagens prontos para que as pessoas pudessem jogar antes de investirem seu dinheiro no jogo. Após liberar o fastplay tivemos um aumento de pelo menos 15% de apoiadores.


Parcerias e amizades


Eu sempre tentei ser amigo de todo mundo e não queimar pontes com ninguém. Mesmo nas críticas eu tento ser o mais educado e empático o possível. Isso acabou trazendo para o meu lado gente muito boa e que gosta do meu trabalho mesmo que às vezes nós discordemos radicalmente em alguns pontos. Essa convivência foi muito saudável e gerou participação em podcasts, streamings no youtube, relatos em blogs e muito mais.


Gráfica Online


Contratei uma gráfica online, dessas que você envia o arquivo do conforto da sua casa e ela te manda o livro impresso. Isso agilizou bastante o processo e tomei o cuidado de manter os apoiadores a par do que estava acontecendo com uma mensagem nova por semana. Usei aquela própria ferramenta de novidades do catarse para isso. Os apoiadores iam recebendo em tempo real as notícias dos seus livros e pôsteres. Isso dava uma segurança maior para todo mundo de que as entregas não iriam atrasar.



Correios


Eu já havia vendido outros zines antes e enviado sem número de registro nos correios. Nunca havia dado errado e levava em média umas duas semanas para chegar até o comprador. Fiz os cálculos comparando o impresso simples (que não gera número para acompanhamento) com a categoria de impresso módico e cheguei a uma hipótese que eu queria testar:


É mais barato pro autor ele enviar uma nova recompensa para os poucos que tiverem o azar de terem seus livros danificados pelos Correios... do que enviar número de registro para todos os apoiadores.

Conquanto a hipótese tenha se provado verdadeira, não a usaria novamente. No afã de tornar o jogo acessível em seu preço eu quis economizar R$4 no seu preço final e isso me deu uma certa dor de cabeça quando começaram a voltar depoimentos de pessoas que não haviam recebido seus livros dois meses após o envio (mas ainda dentro do prazo estipulado pela campanha). A dor de cabeça foi mais de eu ter que voltar aos correios para enviar novos livros e perder tempo lá, mas ainda assim acho que a gasolina gasta já foi maior que a economia no envio.

Outra coisa, essa mais grave, que me arrependi foi: enviar em envelopes. Se eu tivesse enviado tudo em caixas com plástico bolha desde o início, metade dos re-envios teriam sido evitados. Isso teria aumentado uns R$4 no custo total, o que significa que por apenas R$8 a mais todos os apoiadores teriam número de acompanhamento do pedido e receberiam seus livros sem a possibilidade de danificação no traslado. Certamente é algo que incluirei nos próximos financiamentos coletivos.


Correções


Como meu investimento pessoal no projeto já era de dar insônia de ansiedade, eu não contratei um revisor de texto. Me arrependi. A partir de hoje, todos os projetos terão um revisor, mesmo que eu tenha que tirar do meu próprio lucro. Ver os apoiadores me mandando erros bobos que eu cometi na escrita foi de certa forma humilhante. Me senti amador e isso mexeu com meu psicológico como autor independente. É algo que quero evitar.


Apresentação


Acredito que eu nem precisa dizer isso, mas Beleza importa. Nem sempre a beleza precisa ser cara, mas ela sempre precisa estar presente. A página no catarse e toda a comunicação com os apoiadores foi feita usando artes em domínio público. Em outras palavras, não tive custo nenhum com as artes. Dá uma olhada na página:



Como pode ver as sessões do texto foram divididas por esses headers bonitões, usando a tipografia do livro principal para dar uma coerência visual para todo o projeto. Outra coisa que tentei é gerar essas sensação de fluidez no design das artes: deixei o fundo dos headers de branco para que a transição dele para o texto fosse a mais natural possível. A mesma coisa fiz nas artes das recompensas ao lado: usei o mesmo tom de cinza que o catarse usa para que não ficassem aqueles blocos pesados com bordas definidas.



Por fim, fica aqui o meu incentivo a você que está querendo lançar seu livro de RPG por meio de uma campanha de financiamento coletivo. Espero de verdade que este artigo tenha lhe dado alguma luz para o seu projeto.




86 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

GONTIJOLAB

  • Ícone do Facebook Preto
  • Ícone do Twitter Preto
  • Ícone do Instagram Preto

Guilherme Gontijo é designer mineiro, pai do Caio e marido da Estela. Ele gosta de tomar café no fim de tarde e de fantasia não medieval.

GONTIJOLAB - 28894189/0001-22 

SHCES Q401, BL.A